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Entre os pré-candidatos ao governo de Pernambuco, apenas João Campos não defendeu o fim da escala 6×1

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Em debate desde o fim de 2024, a pauta da redução da escala de trabalho de seis dias por semana e da redução da jornada de trabalho (de 44 horas semanais) ganhou, esta semana, o reforço da governadora de Pernambuco. Pela primeira vez, Raquel Lyra (PSD) declarou publicamente ser favorável ao fim da escala 6×1. Pré-candidata à reeleição, seu posicionamento acompanha o do também pré-candidato ao governo Ivan Moraes Filho (Psol), defensor da pauta desde que o tema ganhou espaço no debate público. Enquanto João Campos (PSB), presidente nacional do seu partido, ainda não falou publicamente sobre o tema.

O posicionamento público de Raquel Lyra se deu durante entrevistas ao Diário de Pernambuco e à Folha de Pernambuco, na última segunda-feira (11). “Permitir que uma mãe ou um pai de família possam estar em casa mais um dia, permitir dois dias de descanso semanais, isso não tem discussão”, afirmou a governadora, pontuando que normalmente esse tempo é usado para cuidar da casa, da família e da saúde. “As pessoas não se cuidam porque estão passando muito tempo no trabalho e no transporte”, afirmou Lyra. “O mundo está discutindo sobre o que é verdadeiramente ter qualidade de vida. Então sou a favor de se reduzir a jornada de trabalho”, concluiu.

O ex-vereador do Recife e pré-candidato a governador, Ivan Moraes (Psol), considera que “no futuro, a escala 6×1 será vista da mesma forma que hoje enxergamos a escravidão: um regime do passado, que explora o trabalhador de uma forma inadmissível”. “Não tem como a pessoa só ter um dia para ir ao médico, fazer compras, arrumar casa e se divertir”, resume ele, que considera “imprenscindível” que a população pressione o Congresso para aprovar a redução da escala 6×1 e da jornada de 44 horas.

Moraes considera como “ideal” uma escala de quatro dias trabalhados para três de descanso ou o inverso. “Já está sendo adotada na Europa ocidental. Isso é o futuro, o horizonte para o qual devemos olhar. Mas hoje o fim da 6×1 é urgente. Precisa ser proibido. O teto deve ser a escala 5×2 e sem perda salarial. Não é possível que a classe trabalhadora tenha que trabalhar tanto e ganhar tão pouco”, completa o pré-candidato ao Palácio do Campo das Princesas.

Pré-candidato ao Governo de Pernambuco, Ivan Moraes (Psol) realizava, quando vereador do Recife, diálogo direito com os eleitores nos ônibus
Pré-candidato ao Governo de Pernambuco, Ivan Moraes (Psol) realizava, quando vereador do Recife, diálogo direito com os eleitores nos ônibus | Crédito: Beto Figueiroa/Divulgação

Já o pré-candidato João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife, ainda não deu declarações públicas a favor da redução da escala e jornada de trabalho. O Brasil de Fato entrou em contato com sua assessoria pedindo um posicionamento sobre o tema, mas até o momento não tivemos resposta. Campos é presidente nacional do PSB, partido que integrou oficialmente a campanha do Plebiscito Popular pela redução da escala de trabalho. A bancada do PSB na Câmara Federal apoia a pauta majoritariamente. Treze dos 14 deputados federais da sigla assinaram a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) pelo fim da 6×1.

A deputada federal Tábata Amaral (PSB-SP), esposa de Campos, relutou em assinar a PEC, só o fazendo após sofrer críticas nas redes sociais. Amaral defendeu que a escala seja reduzida mediante ações que reduzam os impactos para os empresários. Já o deputado federal Pedro Campos (PSB-PE), irmão de João Campos, é um fiel defensor da redução da escala e da jornada. O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), defende publicamente a redução da jornada, assim como o ministro Paulo Pereira (PSB), da pasta das micro e pequenas empresas, que considera que a redução da jornada dará aos trabalhadores mais tempo para empreender e buscar uma renda extra.

E os aliados pernambucanos no Congresso, o que acham?

A governadora Raquel Lyra (PSD) disse considerar “muito difícil que isso não seja aprovado no Congresso”. A pauta, todavia, enfrenta resistências em Brasília justamente por parte de políticos do entorno da governadora.

Entre os 25 deputados que representam Pernambuco na Câmara Federal, 11 não assinaram a PEC de autoria da deputada Érika Hilton (Psol-SP) para autorizar sua tramitação, demonstrando que não apoiavam que o tema da redução da escala e jornada sequer fosse colocado em debate. Entre os 11, oito são “raquelistas”: Fernando Monteiro (PSD), Clarissa Tércio (PP), Pastor Eurico (PSDB), Fernando Bezerra Coelho Filho (União), André Ferreira (PL), Coronel Meira (PL), Mendonça Filho (PL) e Waldemar Oliveira (Avante) — este último recentemente declarou apoio à pauta.

Ainda entre os que não apoiaram a PEC estão Luciano Bivar (MDB) e Augusto Coutinho (Republicanos), apoiadores da candidatura de João Campos; e o Bispo Ossésio Silva (Republicanos), que até o momento não deu indicativo de apoio a Lyra ou Campos.

As principais lideranças nacionais do partido da governadora, o PSD, também são contra a redução dos dias e horas de trabalho. O presidente da sigla, Gilberto Kassab, classificou como “muito perigosa” a concessão de um dia a mais de descanso para o trabalhador. O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, afirma que a redução da escala é um “tema petista” e propõe uma radicalização ainda maior da pauta, para que a população receba apenas pelas horas trabalhadas, não tendo mais direito ao descanso remunerado (aos domingos e férias), apesar de o descanso ser fundamental para o exercício do trabalho.

Após 5 anos como prefeito do Recife, João Campos (PSB) é pré-candidato ao Governo de Pernambuco
Após 5 anos como prefeito do Recife, João Campos (PSB) é pré-candidato ao Governo de Pernambuco | Crédito: Vinícius Sobreira / Brasil de Fato

Já entre os 14 que apoiam a redução da escala e da jornada, seis são aliados da governadora Raquel Lyra: Clodoaldo Magalhães (PV), Túlio Gadelha (PSD) e Fernando Rodolfo (PRD) apoiaram a pauta desde o princípio, enquanto Guilherme Uchôa Jr. (PSD), Eduardo da Fonte (PP) e Lula da Fonte (PP) só o fizeram após a pressão dos eleitores nas redes sociais.

Entre os 213,5 milhões de habitantes do Brasil, 110 milhões (51,5% do total) estão em idade produtiva (de 15 a 60 anos). No primeiro trimestre de 2026, o país possuía 102 milhões de pessoas trabalhando (92,7% da população em idade produtiva), sendo 60 milhões no regime CLT (59% dos trabalhadores e 28% da população total). Entre esses trabalhadores de carteira assinada, cerca de 20 milhões (33% dos CLTs, 20% dos trabalhadores ativos e 9,4% da população) trabalham na escala 6×1.

Compensações aos empresários

A governadora considera, no entanto, que os empresários devem receber alguma forma de compensação para que possam manter seu padrão de lucro, já que terão custos adicionais contratando mais funcionários. “O setor produtivo está colocando a necessidade de reduzir o ‘custo Brasil’ para que possa haver contratação sem aumento nos preços dos produtos”, diz Raquel Lyra.

No Congresso Nacional há propostas que vão desde a redução de impostos, passando por um período de transição que duraria anos até a proibição da escala 6×1 e também propostas de fragilização do sistema de proteção trabalhista. O Governo Federal não considera que sejam necessárias compensações.

A deputada estadual Dani Portela (PT), que faz oposição à governadora Raquel Lyra na Assembleia Legislativa, enxergou como contraditória a posição da governadora, já que grande parte dos trabalhadores da estrutura governamental de Pernambuco ainda cumprem a escala 6×1. “Defender o trabalhador exige mais que palavras bonitas: exige decisão política. Seria muito importante que ela levasse essa pauta para dentro de sua base”, afirmou Portela.

Editado por: Vinícius Sobreira
Fonte: Brasil de Fato PE

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