Cientistas políticos avaliam que a tecnologia será cada vez mais usada por candidatos e grupos políticos, mas destacam desafios para a credibilidade da informação
A inteligência artificial já entrou oficialmente no jogo político de 2026 em Pernambuco. Às vésperas do início formal da campanha eleitoral, pré-candidatos ao governo do estado e ao Senado Federal têm utilizado ferramentas de IA para criar vídeos, animações, montagens realistas e conteúdos virais voltados à disputa pela atenção do eleitorado.
Na disputa pelo Governo de Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) tem utilizado a inteligência artificial de forma mais lúdica. Em diversas publicações, a gestora aposta na personagem “Raquelzinha”, uma versão em desenho animado de si mesma criada por IA para apresentar ações da gestão estadual. Utilizando uma estética mais leve e de fácil compartilhamento.
Já o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) segue uma linha diferente. O socialista tem recorrido à inteligência artificial para produzir imagens e vídeos com aparência mais realista. Em uma das publicações, João aparece ocupando o lugar do pai, o ex-governador Eduardo Campos, em uma fotografia da época da campanha para o Executivo estadual. Em outra peça, surge ao lado de trabalhadores em um vídeo gerado por IA para celebrar a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara Federal.
Entre os nomes que articulam candidatura ao Senado na chapa da Frente Popular, o uso da ferramenta também cresce em ritmo acelerado. Marília Arraes (PDT) utiliza IA por exemplo para adaptar tendências e formatos virais das redes sociais, enquanto o senador Humberto Costa (PT) aposta em vídeos produzidos com inteligência artificial para reconstruir episódios históricos e reforçar pautas que defende na Casa Alta.


No campo aliado da governadora, Miguel Coelho (União Brasil) e Eduardo da Fonte (PP) têm explorado formatos mais descontraídos e populares, utilizando montagens ligadas à Copa do Mundo, por exemplo. Túlio Gadêlha (PSD), por sua vez, recorre à IA como instrumento de posicionamento político em pautas nacionais, utilizando vídeos gerados para tratar de temas como o fim da escala 6×1 e críticas ao escândalo envolvendo o Banco Master.



O movimento acompanha uma tendência global de digitalização da política, mas também levanta alertas sobre os riscos da manipulação da informação, da disseminação de fake news e da dificuldade crescente em distinguir conteúdos “de verdade” dos produzidos artificialmente.
Segundo o cientista político Gustavo Rocha, as novas regras da Justiça Eleitoral tendem a limitar os usos mais explícitos da tecnologia nas campanhas oficiais, mas isso não significa redução da influência da IA na disputa política.
“As IAs estarão cada vez mais presentes na publicidade em geral e também nas campanhas. A tendência é que sejam usadas de forma mais invisível e estratégica, especialmente no cruzamento de dados, análise de comportamento e planejamento de comunicação”, analisa.
Rocha alerta que o grande problema está na capacidade da inteligência artificial de produzir conteúdos falsos com aparência extremamente convincente. Para ele, a exigência de identificação de peças produzidas por IA ajuda parcialmente, mas está longe de resolver o problema da desinformação.
“A IA aprofunda o problema da fake news e da difusão de mentiras. O fato de um conteúdo ser produzido por IA não significa necessariamente que ele seja falso, mas a tecnologia aumenta enormemente a capacidade de manipulação da percepção pública”, diz.
O especialista também chama atenção para o impacto emocional das campanhas produzidas com auxílio da inteligência artificial. Segundo ele, a política contemporânea já privilegia o apelo emocional acima do debate racional, e a IA tende a potencializar ainda mais esse fenômeno.
“As campanhas mais bem-sucedidas são as que conseguem emocionar. A extrema direita frequentemente trabalha com sentimentos de raiva e indignação, enquanto governos costumam recorrer ao nacionalismo e à ideia de proteção coletiva. Quem conseguir usar a IA para atingir emocionalmente o eleitor terá vantagem”, analisa.
Outro ponto levantado por Gustavo Rocha é a possibilidade de um “efeito rebote”, no qual o excesso de conteúdos artificiais acabe gerando desconfiança até mesmo sobre materiais verdadeiros. “A sociedade pode chegar em um momento em que qualquer vídeo ou imagem seja colocado sob suspeita”, afirma.
Apesar da expansão acelerada da tecnologia, os especialistas avaliam que a autenticidade ainda continuará sendo um fator decisivo na política em Pernambuco. Para o cientista político Alex Ribeiro, o eleitor local mantém forte identificação com campanhas de proximidade e presença física.
“Em Pernambuco, o calor humano, o corpo a corpo e a sensação de proximidade ainda possuem grande peso político. O desafio será usar a IA sem perder credibilidade e conexão com o eleitor”, observa.
A Justiça Eleitoral tem acompanhado o avanço da tecnologia. As novas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinam que conteúdos produzidos por inteligência artificial devem ser identificados de maneira explícita e proíbem manipulações enganosas que possam distorcer fatos ou produzir desinformação.
Mesmo assim, especialistas acreditam que a velocidade das redes sociais e a circulação de conteúdos apócrifos continuarão impondo dificuldades para fiscalização e responsabilização.
Para Gustavo Rocha, o cenário representa um desafio direto à própria democracia. “Se já foi difícil nas últimas eleições discernir o que era verdade do que não era, em 2026 isso atingirá um grau ainda maior. Sendo bem franco, isto ameaça as fundações do sistema democrático que vivemos”.
IA também impulsiona páginas de memes e perfis políticos
Além do uso como ferramenta de campanha, também tem se notado a utilização da inteligência artificial por perfis de oposição, páginas de humor, contas de memes e perfis sem autoria claramente identificada que têm criado vídeos para atacar e incitar a disputa ao Governo de Pernambuco.
Nos últimos meses, vídeos produzidos com IA passaram a circular utilizando principalmente as imagens dos pré-candidatos João Campos e Raquel Lyra, muitas vezes em conteúdos satíricos, ataques políticos ou peças criadas para estimular o engajamento e a polarização do debate público.

Embora esses materiais não estejam necessariamente vinculados às campanhas oficiais, especialistas apontam que esse ecossistema digital tende a ganhar ainda mais força à medida que a corrida eleitoral avança, também podendo ser usadas para propagação de notícias falsas.
O cientista político Alex Ribeiro também destaca o crescimento de páginas independentes, perfis de humor e contas de memes que utilizam inteligência artificial para atacar ou desconstruir adversários políticos de maneira indireta.
“Os atores políticos perceberam o alcance dessas páginas e muitos já utilizam esses espaços como instrumentos de fortalecimento de narrativas e desgaste de adversários”, afirma.
Na avaliação do especialista, a inteligência artificial ocupará uma posição estratégica tanto na comunicação pública quanto nos bastidores das campanhas.
“Diante das exigências da Justiça Eleitoral, a tendência é que as campanhas utilizem IA para estudar comportamento do eleitor, acompanhar tendências nas redes e aperfeiçoar estratégias de comunicação”, explica.
Diário de Pernambuco




