Novos dados do GLOBOCAN, maior levantamento mundial sobre câncer publicado pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC)*
Nunca houve tantos casos de câncer na história da humanidade. E a tendência é apenas uma: aumentar ainda mais. Os novos dados do GLOBOCAN, maior levantamento mundial sobre câncer publicado pela Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), revelam um cenário que merece muito mais do que preocupação e sim, uma mudança profunda na forma como governos, profissionais de saúde e a própria população enxergam a doença.
Em apenas um ano, o planeta registrou 20,6 milhões de novos casos de câncer e 9,8 milhões de mortes. Em outras palavras, uma pessoa recebe o diagnóstico da doença em segundos, em algum lugar do mundo. Se nada mudar, esse número chegará a 34,4 milhões de novos casos anuais em 2050, crescimento de 67% impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional, aumento da expectativa de vida e pela adoção crescente de hábitos pouco saudáveis.
“Hoje, aproximadamente uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida. Entre os homens, um em cada nove morrerá pela doença; entre as mulheres, uma em cada treze. Embora os avanços científicos tenham revolucionado o tratamento nas últimas décadas, eles não estão chegando com a mesma velocidade para todos os países”, comenta o MD e PhD em Oncologia, Dr. Wesley Pereira Andrade.
O câncer de pulmão continua sendo o maior inimigo da humanidade. São 2,6 milhões de novos casos, representando quase 13% de todos os diagnósticos, e 1,9 milhão de mortes, mantendo-se como o tumor mais letal do planeta. O tabagismo permanece como o principal responsável, mas os pesquisadores chamam atenção para um fenômeno relativamente novo: o aumento dos casos entre pessoas que nunca fumaram, especialmente mulheres asiáticas, sugerindo participação crescente da poluição atmosférica, fatores ambientais e alterações genéticas.
Logo atrás aparece o câncer de mama feminino, com 2,43 milhões de novos casos, consolidando-se como o câncer mais frequente entre as mulheres em praticamente todo o planeta. A boa notícia é que nunca houve tantas opções terapêuticas. A má notícia é que milhares de mulheres continuam morrendo simplesmente porque recebem o diagnóstico tarde demais.
*Desigualdade*
Os países mais ricos apresentam maior incidência de câncer, consequência direta do envelhecimento da população e da maior capacidade de diagnóstico. Entretanto, quando se observa a mortalidade, a realidade se inverte. Países de menor desenvolvimento apresentam mortalidade proporcionalmente maior porque ainda enfrentam enormes dificuldades no acesso ao rastreamento, diagnóstico precoce, cirurgia, radioterapia e medicamentos modernos. Não é apenas uma questão biológica. É uma questão de desigualdade.
O desafio também é econômico. O câncer já representa uma das maiores ameaças à sustentabilidade dos sistemas de saúde. O aumento da incidência ocorrerá justamente em países de baixa e média renda, onde a infraestrutura oncológica ainda é insuficiente. Sem investimentos em prevenção, rastreamento e tratamento, a desigualdade global tende a aumentar nas próximas décadas.
O relatório mostra outro fenômeno importante: o crescimento acelerado dos chamados “cânceres da modernidade”. Tumores colorretais, de mama, próstata e tireoide continuam aumentando em diversas regiões do planeta, impulsionados pela obesidade, sedentarismo, alimentação rica em ultraprocessados, consumo de álcool e alterações nos hábitos reprodutivos. Ao mesmo tempo, infecções continuam sustentando altas taxas de câncer do colo do útero, fígado e estômago em países menos desenvolvidos.
“A ciência já sabe que quase metade das mortes por câncer poderia ser evitada. Cerca de um terço depende exclusivamente da prevenção, com redução do tabagismo, controle do peso, atividade física regular, vacinação contra HPV e hepatite B, alimentação saudável e menor consumo de álcool. Outros 15% poderiam ser evitados com diagnóstico precoce e acesso oportuno ao tratamento. Isso significa que milhões de vidas não dependem de descobertas futuras, mas da aplicação do conhecimento que já existe”, adverte o médico.
Ao contrário da imagem construída durante muitos anos, o câncer deixou de ser uma sentença inevitável. Em vários tumores, quando identificado precocemente, as taxas de cura ultrapassam 90%. A medicina nunca dispôs de tantas ferramentas: cirurgias menos invasivas, imunoterapia, terapias-alvo, testes genéticos, Inteligência Artificial aplicada ao diagnóstico e programas organizados de rastreamento estão transformando a história natural da doença.
O maior paradoxo revelado pelo GLOBOCAN 2024 é que a humanidade nunca conheceu tanto sobre o câncer e, ainda assim, nunca conviveu com tantos casos.
“A próxima grande revolução da oncologia talvez não venha de um novo medicamento milagroso, mas da capacidade de impedir que milhões de pessoas desenvolvam a doença. Os números deixam claro que vencer o câncer não dependerá apenas da medicina. Dependerá, sobretudo, de decisões políticas, educação em saúde, prevenção e acesso equitativo aos avanços científicos”, conclui o especialista.
*Wesley Pereira Andrade*
MD, PhD; Mestre e Doutor em Oncologia; Mastologista e Cirurgião Oncologista; Médico Titular da Sociedade Brasileira de Mastologia; Médico Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica; Coordenador do Comitê de Oncologia Mamária da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica; Membro da Sociedade Americana de Cirurgia Oncológica | SSO – Society of Surgical Oncology e Membro da Sociedade Europeia de Cirurgia Oncológica | ESSO – European Society of Surgical Oncology



