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Artigo: A infância exausta: quando o medo de falhar faz adoecer

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Ricardo Mariz

Está ocorrendo um movimento silencioso pelos corredores das escolas brasileiras, e ele não aparece em boletins nem em provas de recuperação. Aparece na dor de barriga antes da aula, no sono que não vem, na criança de nove anos que já aprendeu a temer o erro como se fosse uma sentença. O que vemos, cada vez com mais nitidez, é uma infância que está adoecendo pelo medo de tentar; o que é preocupante, já que é a fase da vida em que devemos explorar o mundo.

Um estudo publicado este ano na revista científica The Lancet Regional Health, baseado em dados do Global Burden of Disease (2023), demonstrou que os transtornos de ansiedade são a principal causa de incapacidade entre crianças e jovens brasileiros de 5 a 29 anos, liderando o ranking em todas as faixas etárias avaliadas. Entre crianças de 5 a 9 anos, cerca de 12,6% já apresentam algum transtorno diagnosticável, um número que sobe progressivamente até atingir quase um quarto dos jovens de 25 a 29 anos. No total, a pesquisa estima que 15,6 milhões de brasileiros nessa faixa etária convivam com algum transtorno como ansiedade, depressão e TDAH. Estes números são um retrato estatístico de uma geração que cresce sob pressão constante, sem espaço psíquico para o tédio, o erro ou o descanso.

Importante ressaltar que o burnout – um estado de esgotamento emocional, mental e físico que, diferente do cansaço comum, não desaparece com uma noite de sono –  não tem idade para começar. Seus sinais incluem fadiga persistente, irritabilidade, queda de rendimento escolar, isolamento social e uma ansiedade que, muitas vezes, é confundida com déficit de atenção ou hiperatividade, quando na verdade tem sua origem na sobrecarga emocional.

O burnout infantil não é apenas um excesso de tarefas, é um peso emocional causado pela exaustão diante da impossibilidade de falhar. Hoje muitas crianças vivem rotinas tomadas por atividades extracurriculares, avaliações precoces e uma lógica de desempenho que trata a infância como um projeto de investimento para o futuro. Crianças que vivem essas rotinas acabam tendo pouco espaço para o que, paradoxalmente, é insubstituível no desenvolvimento infantil: o brincar sem propósito, o ócio, a experiência do erro.

Em conjunto com este cenário temos também a hiperexposição às telas, que oferece uma válvula de escape falsa, uma vez que substitui as cobranças do mundo real pelas cobranças, igualmente intensas, do mundo virtual, reforçando imediatismo, comparação social e a sensação de nunca ser suficiente.

É aqui que os dois retratos se encontram. Uma criança que aprende cedo demais que errar é perigoso não desenvolve apenas ansiedade, desenvolve também uma forma de se “proteger” que empobrece sua relação com o mundo. Diante de frustrações, diferenças e conflitos que fazem parte de qualquer convívio humano, a resposta mais disponível deixa de ser o enfrentamento elaborado e passa a ser o entorpecimento: a tela que distrai, o silêncio que evita, a indiferença que protege.

O resultado é uma sociedade em formação que aprende a lidar com o desconforto anestesiando-o, em vez de atravessá-lo. Frustrações que antes seriam processadas com apoio, tempo e espaço para o erro, passam a ser evitadas ou suprimidas. E o que deveria ser exceção, como resposta a um estresse pontual, corre o risco de se tornar regra, uma camada permanente sobre a experiência de crescer. Períodos como o Setembro Amarelo nos fazem refletir sobre o que pode estar causando pressão em nossa sociedade a ponto dos indivíduos perderem o apreço à vida.

Para amenizarmos estes efeitos negativos no desenvolvimento das futuras gerações é preciso devolver à infância o direito ao tempo ocioso, ao erro sem culpa e ao descanso sem produtividade embutida. Isso significa rever, na escola e em casa, o quanto se cobra desempenho precoce, o quanto se preenche a agenda infantil e o quanto se naturaliza a tela como substituta do convívio.

A ideia de desvincular o erro da culpa e da perspectiva da sociedade performática, não é relativizar o erro, pelo contrário, é assumi-lo como parte do processo de aprendizagem, de criatividade e amadurecimento. É corrigir o erro e cuidar de quem errou.

A ansiedade infantil liderando as causas de incapacidade entre os mais jovens não é apenas uma estatística de saúde pública. É um sinal de que estamos formando adultos treinados, desde cedo, a temer a própria imperfeição, e isso tem custo para toda a sociedade, não apenas para quem adoece.

*Ricardo Mariz é pedagogo, mestre em educação, doutor em sociologia e assessor da União Marista do Brasil.

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