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O que a inteligência artificial deixou de fora da eleição

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Por John Park, Membro Fundador da Equipe Técnica da AGI Inc. e Membro do Forbes Technology Council

Você ficou feliz com o resultado da eleição? Ou gostaria que o resultado tivesse sido diferente? Independentemente da sua preferência política, há uma pergunta que vale para todos: até que ponto a inteligência artificial influenciou a maneira como enxergamos os candidatos?

Neste cenário, há uma questão  que merece atenção e vai muito além de saber quem ganhou ou perdeu: a inteligência artificial pode nos levar a conclusões equivocadas sem necessariamente contar uma mentira.

Durante a campanha eleitoral, falou-se muito sobre os perigos da desinformação. Vídeos falsos, imagens fabricadas, declarações inventadas e conteúdos manipulados por inteligência artificial passaram a fazer parte das nossas preocupações. E com razão. Hoje, qualquer pessoa pode produzir, em poucos segundos, algo que parece verdadeiro, mesmo que não tenha acontecido.

Mas será que estamos prestando atenção ao problema certo?

Uma pesquisa brasileira chamada Boca de IA, realizada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) em parceria com o Ministério Público Federal, apresentou um resultado curioso. Ao analisar sete ferramentas de inteligência artificial, os pesquisadores descobriram que, dos 13 candidatos à Presidência da República, apenas quatro eram mencionados em todas as sete plataformas.

Isso significa que uma pessoa poderia perguntar a diferentes ferramentas quem estava disputando a eleição e receber listas diferentes de candidatos.

Pense no que isso representa. Uma ferramenta pode apresentar cinco nomes verdadeiros, com informações corretas sobre cada um. Outra pode apresentar oito. Nenhuma precisa inventar um candidato ou divulgar uma notícia falsa. Ainda assim, quem recebe a primeira resposta pode sair com uma visão mais limitada da disputa, sem sequer perceber.

É justamente aqui que surge um problema pouco discutido: nem toda informação enganosa é necessariamente falsa.

O pesquisador de inteligência artificial De Kai, no livro Raising AI, publicado em 2025, apresenta um conceito chamado “neginformation”. A palavra pode parecer complicada, mas a ideia é simples: informações verdadeiras também podem criar uma impressão enganosa quando partes importantes da história são deixadas de fora.

Estamos acostumados a combater a desinformação procurando o que é falso. Mas como identificar uma informação que está correta e, ao mesmo tempo, incompleta?

Essa diferença importa especialmente quando usamos ferramentas como o ChatGPT para aprender sobre política. Antes, ao pesquisar um assunto na internet, encontrávamos diferentes sites, notícias e opiniões. Precisávamos escolher em quais fontes confiar. Agora, cada vez mais, fazemos uma pergunta e recebemos uma resposta pronta, bem escrita e aparentemente segura.

É conveniente. E justamente por ser tão conveniente, podemos acabar confundindo uma resposta bem apresentada com uma explicação completa.

É claro que nem toda omissão representa manipulação. Qualquer resumo precisa selecionar informações, e não seria razoável esperar que uma inteligência artificial apresentasse todos os detalhes de um assunto em cada resposta. Também não há provas de que as diferenças encontradas na pesquisa brasileira tenham sido intencionais ou tenham alterado o resultado da eleição.

O problema ocorre quando a ferramenta seleciona informações sem deixar claro ao usuário que está recebendo apenas parte da história. E isso nos coloca diante de uma responsabilidade importante.

As empresas que desenvolvem inteligência artificial precisam ser mais transparentes sobre como suas ferramentas selecionam e apresentam informações, especialmente em temas que afetam a democracia. Mas nós, como usuários, também precisamos mudar a maneira como consumimos essas respostas.

Não basta perguntar se a informação está correta. Precisamos conferir as fontes, comparar diferentes perspectivas e entender que uma resposta convincente nem sempre conta a história toda.

A eleição terminou. Lula foi reeleito. Mas a discussão sobre o papel da inteligência artificial na formação das nossas opiniões está apenas começando.

Talvez o maior perigo da IA não seja apenas sua capacidade de inventar mentiras, mas também a de nos fazer acreditar que já sabemos tudo o que precisamos saber.

Por isso, na próxima vez que você perguntar algo à inteligência artificial, faça também uma segunda pergunta: o que ficou de fora dessa resposta?

 

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