Apesar da BNCC prever competências socioemocionais, muitas instituições ainda não conseguem colocar em prática um ensino que prepare alunos para os desafios do século XXI
Quando se fala em preparar jovens para o futuro, não basta apenas garantir que eles dominem português, matemática e ciências. O mercado de trabalho e a vida em sociedade têm exigido cada vez mais habilidades socioemocionais, como empatia, resiliência, pensamento crítico, criatividade e colaboração. No entanto, mesmo após a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incluir oficialmente essas competências como parte fundamental do desenvolvimento escolar, a realidade mostra que a maioria das instituições de ensino ainda não conseguiu incorporá-las de forma consistente.
De acordo com um levantamento do Instituto Ayrton Senna (2023), apenas 37% dos professores dizem ter recebido formação adequada para trabalhar habilidades socioemocionais em sala de aula. Além disso, estudo da OCDE mostra que estudantes brasileiros têm uma das mais baixas percepções de bem-estar escolar entre os países avaliados, sinalizando falhas no apoio emocional e social oferecido pelas escolas.
“A BNCC não é apenas uma lista de conteúdos. Ela traz uma visão integral de educação que inclui competências essenciais para a vida adulta. Mas, na prática, muitas escolas ainda tratam esse eixo como algo secundário, quase um ‘extra’”, afirma David Santos, pedagogo e autor.
O que são competências socioemocionais?
O conceito pode soar abstrato, mas é bastante concreto na vida cotidiana. Trata-se de habilidades como aprender a lidar com frustrações, se comunicar de maneira não violenta, gerenciar emoções em situações de pressão e saber trabalhar em grupo. São competências que fazem diferença tanto no desempenho acadêmico quanto no futuro profissional.
Um exemplo prático é o desenvolvimento da empatia em projetos interdisciplinares. Quando estudantes de diferentes idades trabalham juntos em atividades sociais, como campanhas de arrecadação ou ações ambientais, eles aprendem a enxergar o outro e a cooperar em prol de um objetivo comum.
O hiato entre teoria e prática
Apesar das diretrizes da BNCC, o que se observa no dia a dia das escolas é um abismo entre teoria e prática. Muitos professores não recebem formação para aplicar metodologias ativas, e o currículo acaba sobrecarregado de conteúdos tradicionais. Com isso, temas como gestão de emoções, ética ou resolução pacífica de conflitos ficam de fora.
Outro ponto crítico é a avaliação. Enquanto provas escritas ainda são o principal instrumento de medição do aprendizado, as competências socioemocionais dificilmente são avaliadas, o que reforça a ideia de que não são prioridade.
“É um erro pensar que socioemocional é apenas ‘ser bonzinho’ ou ‘saber se comportar’. Trata-se de competências ligadas à tomada de decisão, liderança e inteligência emocional, elementos centrais em qualquer carreira. Empresas já contratam com base nisso, mas as escolas ainda não acompanham esse movimento”, complementa Santos.
Casos concretos: do fracasso à inovação
Em uma escola de médio porte em São Paulo, um programa de mediação de conflitos entre alunos reduziu em 40% as ocorrências de bullying em dois anos. A iniciativa, porém, não nasceu da BNCC, mas do esforço individual de professores e coordenadores. Esse tipo de exemplo mostra que, quando há investimento e vontade institucional, os resultados aparecem — mas ainda dependem de iniciativas isoladas.
Já em redes públicas municipais, como a de Sobral (CE), projetos que integram leitura com rodas de conversa sobre sentimentos ajudaram a melhorar indicadores de alfabetização. Os professores passaram a perceber que lidar com a ansiedade e autoestima dos alunos tinha impacto direto na aprendizagem.
O que precisa mudar
Para Santos, o avanço depende de três eixos:
- Formação docente contínua: preparar professores para trabalharem competências socioemocionais de forma transversal, não apenas como uma disciplina isolada.
- Metodologias ativas: incentivar projetos que desenvolvam colaboração, resolução de problemas e comunicação.
- Avaliação inovadora: criar formas de medir não só o desempenho acadêmico, mas também o progresso socioemocional.
“Se quisermos formar cidadãos críticos, inovadores e capazes de lidar com um mundo em constante mudança, precisamos romper com a ideia de que habilidades socioemocionais são secundárias. Elas são tão importantes quanto saber ler e escrever”, reforça o pedagogo.
A lacuna entre o que a BNCC prevê e o que se realiza nas escolas escancara uma urgência: alinhar teoria e prática. Caso contrário, o Brasil continuará formando gerações com diplomas, mas sem preparo para enfrentar os desafios sociais, profissionais e emocionais do século XXI.
Sobre David Santos
David Santos é pedagogo, formado também em Recursos Humanos e pós-graduado em Psicologia Organizacional. Autor dos livros “A menina que já nasceu criança” e “Igreja Enfeitiçada: uma análise do poder das narrativas em Judas e Bolsonaro”, atua na interface entre educação, comportamento e sociedade, trazendo análises críticas sobre os desafios contemporâneos da formação humana.



