A pancada veio de longe, mas com o aval de quem deveria proteger o produtor brasileiro: os fruticultores do Vale do São Francisco foram surpreendidos com a decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 50% sobre a exportação de frutas brasileiras, como mangas e uvas — medida que ameaça devastar a economia de milhares de pequenos e médios agricultores do Sertão nordestino.
A tragédia, no entanto, não veio do nada. Foi construída com a conivência de dois protagonistas que agiram em sintonia em prol de interesses próprios: o então presidente norte-americano Donald Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Um decreto assinado por Trump excluiu as frutas da lista de isenção e beneficiou setores estratégicos para os EUA. E Bolsonaro? Silenciou. Aplaudiu. Se calou enquanto o Brasil era rifado nas relações comerciais, desde que ganhasse um aperto de mão em troca.
Com isso, os produtores da região veem a “janela americana” — período de exportação entre agosto e novembro — virar um pesadelo. José Nilton Gonçalves, pequeno agricultor de Lagoa Grande (PE), recebeu ofertas de menos de R$ 0,80 pelo quilo da manga, que no início do ano valia quase R$ 6. É prejuízo na certa. “Desse jeito, não dá nem pra tirar a despesa”, lamenta.
Mais de 700 mil frutas poderão apodrecer nas fazendas do Sertão, como em Petrolina. A Europa não quer a variedade americana da manga, e o mercado interno já está saturado. A superoferta joga os preços para o chão. O problema atinge a todos: do grande exportador ao agricultor familiar.
A crueldade não está só na tarifa. Está no descaso. Enquanto setores como o aeronáutico e o energético foram blindados na lista de exceções da tarifa americana, as frutas do Vale — que sustentam famílias e colocam comida no prato de milhões — foram ignoradas.
Essa exclusão não é apenas comercial. É política. É o resultado de uma diplomacia amadora e submissa, onde Bolsonaro, ao invés de defender os interesses do Brasil, se portou como um “embaixador informal” dos EUA. E o retorno veio na forma de traição tarifária: a aliança que tanto prometeu nunca passou de ilusão.
Para o presidente da Abrafrutas, Guilherme Coelho, nem mesmo redirecionar as frutas à Europa é viável. Vai quebrar o produtor brasileiro em dois continentes. “Precisamos de diálogo e bom senso”, apela. Mas diálogo com quem? Trump já saiu de cena, e Bolsonaro deixou um rombo diplomático que ainda custa caro ao país.
O estrago está feito. E tem CPF: um nos EUA, outro no Brasil. A maldade não foi acidente. Foi projeto. E agora quem paga são os homens e mulheres do campo, que só queriam colher dignamente o fruto do seu trabalho.



