Rodrigo Augusto Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)
A nova pesquisa Genial/Quaest para o governo de São Paulo, divulgada nesta semana, oferece mais do que uma fotografia eleitoral: ela revela tendências estruturais e ajuda a compreender o tabuleiro político de 2026. Em um cenário cada vez mais nacionalizado, a disputa paulista ultrapassa as fronteiras estaduais e se conecta diretamente com a sucessão presidencial, com os cálculos estratégicos do lulismo e com a reorganização da direita pós-Bolsonaro.
Os números são expressivos. Tarcísio de Freitas aparece liderando com folga tanto no primeiro quanto no segundo turno diante de Fernando Haddad. Mais do que isso: soma aprovação administrativa relevante, menor rejeição e clara vantagem eleitoral. Esse tripé de governo bem avaliado, rejeição controlada e liderança nas intenções de voto costuma ser o melhor indicador de favoritismo consistente e não apenas circunstancial.
Não se trata apenas da força da máquina estadual, embora ela tenha peso. Trata-se, também, da construção de uma imagem pública que conseguiu equilibrar eficiência administrativa, moderação discursiva e forte identificação com o eleitorado conservador paulista. Tarcísio ocupa, simultaneamente, o espaço do gestor e o espaço simbólico da direita competitiva. Muito melhor ser forte candidato à reeleição ao governo estadual do que despertar a ira do bolsonarismo radical numa disputa pelo Planalto.
Fernando Haddad, por sua vez, continua enfrentando um problema recorrente em São Paulo: sua elevada rejeição. Trata-se de um político conhecido, com densidade eleitoral, trajetória consolidada e respaldo do presidente Lula. Todavia, seu nome parece encontrar um teto de crescimento persistente, especialmente quando a disputa exige ampliação para além do eleitorado petista mais fiel. Esse é um fato relevante para o PT. Insistir em Haddad pode significar apostar na previsibilidade organizacional e no capital político já acumulado; contudo, também pode representar a repetição de um limite eleitoral já conhecido. Buscar outro nome exigiria reorganização partidária, construção de viabilidade e, sobretudo, a difícil tarefa de renunciar a um nome nacionalmente consolidado. Há quem entende que Haddad vai para o sacrifício, objetivando garantir palanque para Lula em São Paulo.
Há ainda uma dimensão nacional incontornável. Tarcísio não é apenas candidato à reeleição, mas apresenta-se como um ativo estratégico da direita brasileira. Quanto mais sólido estiver em São Paulo, maior será seu peso na sucessão presidencial e no redesenho do campo conservador. Em um cenário de incerteza sobre o futuro político de Jair Bolsonaro, o governador paulista amplia sua centralidade como nome viável, competitivo e institucionalmente palatável. São Paulo, historicamente, sempre foi mais do que um estado na política brasileira; é um centro de gravidade. Quem vence São Paulo não vence automaticamente o Brasil, mas passa a disputar o país em melhores condições. Por isso, a pesquisa Genial-Quaest não deve ser lida apenas como um levantamento estadual, mas como um sinal importante da arquitetura política nacional.
A oposição ao governo Lula observa esse movimento com atenção. O Palácio do Planalto também. A disputa paulista tornou-se, muitos asseveram, um laboratório da sucessão presidencial e um teste sobre a capacidade de renovação de ambos os campos políticos.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja quem lidera hoje, mas quem consegue transformar essa liderança em hegemonia duradoura. E, neste momento, Tarcísio parece mais próximo dessa condição do que seus adversários gostariam de admitir.
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